Bacurau é triunfo do cinema brasileiro

Sergio Alpendre, editado por Wharrysson Lacerda
Bacurau (Divulgação)
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No Brasil politicamente polarizado dos últimos seis anos, um dos maiores males, na apreciação de uma obra cinematográfica, é a automatização de adesões e rejeições. Se um filme se mostra ou se encaixa, mesmo que à fórceps, num discurso de esquerda, quem se entende como de esquerda vai automaticamente amar, e quem se entende como de direita vai automaticamente detestar. O mesmo se dá quando o filme se encaixa num discurso de direita. Essa automatização costuma negligenciar o aspecto cinematográfico, e, com isso, o cinema.

Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, surge cercado desse tipo de reação. E é muito fácil compreendê-lo como um filme de esquerda, em defesa dos oprimidos contra os gananciosos opressores e os mercenários psicopatas que costumam se associar a eles. Mas pense bem: não é exatamente isso que a grande maioria dos filmes hollywoodianos nos entrega? Nos filmes da Marvel há sempre uma ode à representatividade, um ataque aos preconceitos e aos opressores e uma defesa da liberdade e da diferença. Sim, porque Hollywood é predominantemente de esquerda, ainda que seja uma esquerda ligada a um imperialismo cultural. Então não faz sentido um cidadão amar filmes da Marvel e odiar Bacurau por seu conteúdo altamente político. 

Na trama, o pequeno povoado chamado Bacurau sai do mapa quando uma moradora tradicional e muito querida morre. Logo descobrem uma trama terrível, motivada por negócios criminosos que oprimem todo o local (em torno da distribuição de água), e os moradores precisam se defender. E às vezes, é necessário pegar em armas para isso.

Esquecendo o conteúdo obviamente político e indo ao que interessa em nosso caso, o cinema, é necessário dizer que Bacurau não é bom, é muito bom. Tem algumas das melhores atuações do cinema brasileiro recente, incluindo uma Sonia Braga fantástica (ao contrário de Aquarius, filme anterior de Mendonça Filho, em que os atores não estão muito bem e os diálogos não ajudam). Tem um trabalho de câmera exemplar (ponto alto de Aquarius, aliás). E tem uma montagem muito bem pensada e realizada, com cortes rápidos e inserções brilhantes como maneira de rememorar algum acontecimento. 

É principalmente um filme de gênero como raras vezes se viu no Brasil, com cenas violentas e atmosfera de thriller. É realizado sob o signo de John Carpenter (grande diretor americano de Fuga de Nova York e Fantasmas de Marte), embora algo de O Estranho Sem Nome (Clint Eastwood, 1973), seja facilmente notado. Dificilmente surgirá algo melhor no cinema brasileiro deste ano.

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